o mar das nuvens
ou uma carta para elena ferrante
elena,
quero te contar sobre o meu percurso com você.
encontrei o seu nome na época em que atravessávamos tempos sombrios na política, na economia e na saúde — aqui no brasil, de onde te escrevo, passávamos por um governo negacionista que carregava ódio e desesperança.
estávamos em pandemia e eu não lia com frequência, tenho memórias vagas de como cheguei até você, mas não me recordo do tempo exato. no entanto, o seu lugar de ausência me refugiou. assim, através de outros que falavam de você, me aventurei por suas páginas, pelas páginas dos seus livros.
no caminho encontrei com olga em sua travessia do abandono; acompanhei délia pelas ruas de nápoles em busca de vestígios da mãe; roubei uma boneca junto com leda; olhei nos olhos de lenù e lila, elas me olharam de volta.
você me olha de volta e as linhas me guiam no escuro do mundo.
foi no escuro que apostei no meu tema de pesquisa, elena.
a frantumaglia da sua língua materna encontrou eco na trajetória das mulheres de minha família — minha mãe, minhas avós. hoje, aos vinte e seis anos, olho essas ancestrais com os olhos de quem sabe de onde veio e para onde quer ir.
o pavio aceso de suas palavras são o meu mapa.
há algum tempo, logo após o meu encontro com suas meninas/mulheres da saga napolitana, me considerava mais próxima e mais íntima da aquiescência de lenuccia — suspeito que o meu ascendente em virgem e o sol daqueles cabelos louros se encontram no céu de uma astrologia qualquer.
porém, existe lila.
lina, raffaella, cerullo.
essa pessoa, esse lugar, essa lacuna, essa perda e essa mulher-cidade que existe a partir de uma outra e segue com ela, segue comigo.
as medusas, as sereias, as criptas, as imagens, as roupas, as fotografias e os túmulos — passeio nas palavras e construções desejando que a falha geológica apareça e incendeie a cartografia dos espaços.
ainda não encontrei suas invenções ocasionais, mas invento você criando a mim.
suas margens e desmarginações, seus ditados, sua caneta e sua pena contornam o meu desejo pela vida e pela pesquisa.
uma luz projetou na sala da minha casa as imagens de my brilliant friend, a série audiovisual, e o meu olhar foi capturado para fora do quadro, ali onde é possível tecer uma vida de assombro em assombro.
[semana passada, elena, apresentei uma parte dos meus caminhos da pesquisa para algumas pessoas desconhecidas. eu fui voando de aracaju/se para o rio de janeiro/rj e, depois, percorri estradas sinuosas até uma cidade chamada juiz de fora/mg.
elena, essa foi a minha primeira vez fora do litoral que chamo de casa.]
não conheci giovanna, sua última narradora, porque tenho medo de chegar ao fim de sua obra. eu gosto da sensação de não ter lido todos os volumes escritos por você, mas talvez eu precise te ler completamente para encontrar com a incompletude que suporta a minha escrita.
estou perdida pelas ruas de nápoles e peço algumas informações para uma mulher que passa por mim. enquanto pergunto como chegar no lugar para onde quero ir, escuto uma resposta da voz que me parece familiar.
olho para essa mulher que fala uma mistura de dialeto e italiano, ela me olha de volta e sorri.
eu não entendo o que ela diz, eu não falo italiano.
ela me olha mais uma vez, eu vejo que a mulher sou eu.
sou eu porque é ela.
chego ao fim dessa carta com um mar de lágrimas nos olhos, elena.
o mar.
minha mãe me deu o mar do nome, você me deu o mar das nuvens.
com amor, também,
samara.
